Inadequeção distinta de ser

Mas desse vagar silencioso, estranho e incrédulo,

o aperto fundo do dar-se conta se anuncia,

e dizimando a invasão sedutória aqui já feita,

lança-se na lancinante e única dor de ser...


Próximo, elevado, perfeitamente inadequado.

terça-feira, 22 de julho de 2014

O tempo como derrotado


O tempo como derrotado

Ao contrário do que foi dito por velhas e frustradas gerações
que ainda não aprenderam a registrar a história
é possível vencer o tempo. 

Mas somente em intervalos não planejados
por esses frios e vulgares cotidianos da nossa falta de comunicação
ou pela ausência da exclusiva e calorosa felicidade
encontrada na possibilidade de estar só. 

Existem momentos em que é possível vencer o tempo
o poderoso soberano e respeitável tempo
devorador de filhos que nascem para confrontá-lo
e que morrem antes de dar os primeiros passos
ou desejar provar frutos nomeados de revolução. 

Somos medo e silêncio além dos cálculos
construídos em um mundo que não é capaz
de reconhecer outros mundos que não o seu próprio
supondo saber verdades sempre sujas de sangue. 

Mas ainda assim, é possível vencer o tempo
pois o tempo é derrotado nos encontros criadores
quando ocorrem as danças das saudades sinceras
e dos abraços de nossos atos de transformação
inscrevendo marcas dos instantes revividos. 

O tempo finalmente derrotado vai de encontro à própria morte
sem deixar de se questionar ao menos um segundo
o porquê não ter vivido o próprio amor... 


20/07/2014 (mas não há mais tempo a registrar, pra não dizer que não falei de amor).

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Do que me faz conhecer



Do que me faz conhecer

Eu nunca soube haver em mim a vida
que rompesse tudo o que eu sempre fui

também não soube escrever no sonho
o reflexo mínimo do que eu venho a ser...

Um vir a ser que é exatamente o que sou...


Foi preciso conhecer que não sou nada
além de um desconhecimento suave e belo
que faço deslizar sobre mim mesmo...
Ao alcançar a cadeia faltante de nomeação
sobre a qual chego ao nome de Felicidade
para isto que me faz sublime sobre tudo...

Essencialmente este efeito-feito em mim
Uma outra  vez mais sobre tudo...
Sobre tudo o que é a tua presença,
o meu amor...


29/01/2014
Um palavra além

Navalha de Desconhecimento


"Sons, palavras,
são navalhas...
E eu não posso cantar como convém
sem querer ferir ninguém".
(Belchior)

Navalha de desconhecimento 


Talvez seja mesmo um desconhecimento sem fim
isso de querer saber quem somos ou quem sou...
E entanto muitos são os que sabem:
As palavras proferidas sabem
sons conhecidos ecoando na memória sabem
a discussão por incômodos que se acumulam sabe
o tempo de um eterno passado sabe
as vozes pontiagudas que se repetem sabem
a lembrança de toda a solidão deixada sabe
o espectro de si mesmo que ressurge sabe
os que repetem minhas palavras ofensivas sabem
os que tentam desvelar minhas navalhas sabem
o amigo novo tão igual e diferente sabe sem entender
a amiga nova que sorri sua criança também sabe
todos afinal acabam revelando claramente a mim
tudo aquilo que nunca poderei saber...

E logo mais, retorno a mim novamente
cantando, para pedir por uma única e primeira vez:
Não me deixem de mostrar seus cortes,
pois em mim também se faz as tuas dores
em mim, sigo descobrindo o desconhecimento que sou.


15/01/14
21:00

Ass: um ofensor.

sábado, 26 de outubro de 2013

Um olhar estranho para a estranheza da palavra



Um olhar estranho para a estranheza da palavra

Ela lança um olhar indecifrável sobre a estranheza de todos vocês
e percebendo esse outro mundo distante que ela não pode tocar
depois de tudo o que se tornou e do que virá a ser...
acaba por ser ela própria a estranha entre os seres de felicidade...
estes que esbanjam afirmações encenadas no teatro do superficial
cuja regra é se tornar uma convenção da aparência do que não são
e do que nunca virão a ser ou saber...

Ela corre e gira além do tempo quando um abraço desloca o mundo
conseguindo tocar a proximidade de alguém que vaga sem caminho
e que sendo um estranho entre aqueles seres e também para si mesmo
busca decifrar o olhar que lhe foi anunciado conter respostas...
não respostas que preenchem os espaços vazios de si mesmo
mas respostas abstraídas desse olhar criador de uma vida poética...
na qual os dois estranhos acabam por se encontrar:
olhar e palavra numa mesma composição...

Alfredo Baleeiro

domingo, 20 de outubro de 2013

A rua e um alguém


A rua e um alguém

Há sempre um algo mais de vida
nos desvãos da indiferença,
há sempre uma história marcada
no olhar de experiência do absurdo,
sem máscara, sem conforto, sem cor.
Há sempre um alguém que sofre
em cada esquina de invisibilidade
dissipada no coração do transeunte.

Alfredo Baleeiro

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Um outro rabisco de giz





Um outro rabisco de giz

Algumas pessoas ás vezes são como poemas
nos invadem em um súbito momento de encanto
nos dissolve no prazer absorto de sua contemplação
e nos crava as marcas reflexivas de nosso próprio ser.


É um poema que te lê...
A partir disso as pessoas poemas singulares cantam as imersões subjetivas de seus mundos... Mas isto não é tudo e não são todos...

Algumas pessoas são como Poesia
e não necessitam invadir ou encantar ninguém
pois estão emergindo a partir do canto de tudo e de todas as coisas que em si constituem a beleza ilimitada do universo
com toda a dor e prazer que possui, independente de simples reflexões de ser, elas são a própria fonte para tentativas vagas sublimes de metaforizar o indizível, o desejo desconhecido, a rosa azul desenhada a um giz rabiscado ante o sol...
que ilumina cabelos vermelhos e de todas as cores...


Alfredo Baleeiro

terça-feira, 3 de setembro de 2013

Escuro Velho


Escuro Velho

A pena que escreve as vidas cotidianas
marca o papel de uma tinta melancólica e vulgar.
Mas quem disse que o tempo é escrito?
Ele não é mais do que transcrito
de tudo o que um dia disseram os corações cansados
de se debaterem na insistência de dizer o inaudível.

Assim se diz ter um dia escolhido pensar
mas quem disse que a isto se escolhe?
o pensamento que existe no que não pensa?
mas uma outra vez: quem é que não pensa?

No entanto o verso e a validade mórbida da velhice de ser
são os senhores de longa barba que saem do escuro
e transcrevem os papeis empoeirados da vida
no caminho próximo e singular da morte
que permanece sorridente em busca do teu abraço.

Não deixam de ser um só:
Inconstância consciente, espaço e palavra
recriando a qualquer momento o valor de tua própria expressão...
Gritada, elevada, redefinida, poetizada, indefinívelmente bela...

Alfredo Baleeiro

sábado, 20 de julho de 2013

Sobre a finalidade do finalmente



...

Um ferimento aberto
talvez sempre permaneça aberto
mas ao receber um outro golpe
um derradeiro e incisivo golpe
ele enfim se torne, pronto
para criar sua própria pele
estancando o sangue que jorrava além desse tempo
revestindo o desolamento da incompreensão
atravessado por raios sublimes
que anunciam a vontade dos tempos
ou que as estradas estão para além do mundo
para além daqueles que supõe entender
aquilo que desconhecem em suas próprias penumbras.

Finalmente encontra-se pronto, caro vagante da abstração
para iniciar o ciclo de sua cura mortalizada
a distinção do que aqui ou ali, remete a ti mesmo.
Sem a miníma eternidade em teu ser
percorrerá inteiramente os mundos
ninguém verá tua cicatriz absurda
pois ela dá a constatação apenas a você
que a vida se faz através daquilo que é teu desejo
sua tentativa, confronto, composição, beleza.

Solidificar a matéria da dor
e simplesmente sorrir para a ironia inesgotável
dos universos humanos....

Alfredo Baleeiro
20 de Julho de 2013


quarta-feira, 17 de julho de 2013

...



...

Nunca compreendeu tudo aquilo que foi dito
se tanta coisa nunca pôde fazer sentido
se não existiu palavra alguma entre o abismo que carrega
e o que por vezes surgia como um anseio de que pudesse conhecer
ao menos uma parte do que desconheço.

E seria um claro desconhecimento dizer-lhe para partir
desde que deixasse aqui um sorriso ainda vivo?

Ingenuidade de supor que você poderia conhecer
aquilo que em mim não sei e que nunca terá um fim
ou que eu poderia lhe dar aquilo que não tenho
formando um saber de corações vazios
que preenchem o mundo de sonho e desejo.

Porém dissimulando a mais pura verdade
que surge sob a forma profunda e resistente
na qual o teu semblante se apresenta
outra vez de um modo alegre e ingênuo.

uma eterna ingenuidade que há muito tempo se convencionou a chamar de amor....

Alfredo Baleeiro

17/07/13

domingo, 30 de junho de 2013

Prazer auto descritivo


Prazer auto descritivo

Auto descritivamente não passo de um sujeito que deseja desejar o extraordinário incomum. Desejar aquilo que não se chega a conhecer senão pelo prazer, pelos modos que invento para subverter toda esta convencionalidade que quer proibir a vida de ser prazer, de inventar-se por poesia.

Mas a vida como prazer não é negar o sofrimento e a minuciosa tragédia da vida humana. Mas o que é o prazer no olhar de um sutil desejante?

“Conhece-te a ti mesmo!” – assim diz o antigo oráculo, anunciando a sina da possibilidade humana:

O prazer é a poesia das coisas, do mundo, dos seres. O prazer é ter a mim mesmo com um desafio. O prazer é pensar sobre tudo aquilo que de tanto pensar se alcança com o corpo as imagens do sonho.
O prazer é trocar um olhar com um alguém que torna desnecessário qualquer palavra. O prazer é um sorriso e um abraço em um momento preciso. O prazer é ir a lugares desconhecidos e me perder, e ao me perder no desconhecido, encontrar um caminho mais próximo de mim mesmoO prazer é dizer tudo aquilo que se deseja dizer a alguém, lançando ao longe algum tipo de medo ou receio daquilo que poderá ser. O prazer é reencontrar com alguém aquilo que os une, e que já nos esquecemos. O prazer é afirmar com autonomia o próprio bem e mal, a própria força e fragilidade. O prazer é um beijo de despedida e de reencontro. O prazer é ter a coragem de ser eu mesmo quando o mundo me pede para ser um padrão, pois não ser um padrão significa estar isolado, e isolamento significa tornar a mim mesmo a expressão da minha verdade... quem ousa a afirmação, força e coragem de suportar a si mesmo? De superar a si mesmo a todo instante? O prazer é viver e reviver, recriar e criar através da arte.
O prazer é tocar os dedos da morte sem horror ou desespero, ao caminho do inevitável não-ser. O prazer é apaixonar-se indefinidas vezes, enquanto faz criações sublimes com as dores agudas do coração. O prazer é romper a estrutura do que até aqui foi tido como verdade O prazer é considerar as palavras que por vezes apertam o peito como um momento preciso para gritar. O prazer é descobrir que viver vai muito além do agarrar-se àquilo que causa angústia. O prazer é ler um poema que te lê. O prazer é conseguir amar a tudo o que sua vida foi até aqui, e a tudo o que ela será, se assim fizer, independente da dor, pois é a dor que tem lhe forjado com o aço de tua razão e de tua loucura. O prazer é muito simples quando se rompe com aquilo que lhe é determinado, para encontrar a si mesmo na bela expressão do que tem construído, para que enfim tenha amor ao que és... no esplêndido, inaudito, inconstante, terrível e maravilhoso fluxo do mundo.

Alfredo Baleeiro
28 de Junho de 2013


sexta-feira, 14 de junho de 2013

Paradoxo de desejo



Paradoxo de desejo (uma resposta)

Agora que permite ver o mundo além de um coração
além das incertezas de uma vaga contemplação na noite
em que esperas ser arrebatada por rajadas de recriação
agora, enfim, sentirá o tempo recriando a vida
no momento em que novas flores brotam do campo
semeadas por pássaros recém-libertos de uma gaiola invisível.

Assim, viverá na concretude mais indefinível
de teu sonho abstrato
sob a via admiravelmente verdadeira
de teu desejo sublime.

Lançastes ao ar a tua expressão de mundo
deixando-se partir rumo a lugar nenhum
lugar distante que nunca sabes onde é
mas sabe que neste eterno vagar e vagar
por vezes pousará para um breve respiro
e neste momento, sustentará a si mesma
com seu prazer, sua dor, seu sonho, sua voz, sua letra
e toda a delicadeza de teu gesto
esculpindo no mundo o semblante
de tudo aquilo que é teu avesso...


Alfredo Baleeiro
14 de Junho de 2013.

domingo, 5 de maio de 2013

Um dizer do intraduzível




Revirar um tempo

O tempo tem se revirado por ai

o tempo andou me revirando, aqui
mas quem sabe não fui eu, assim 
estranhamente desligado do tempo
que fiz revirar cada canto de sentido
desvelando aquilo que o tempo
não consegue traduzir.

Quem sabe foi por que este tempo

não tem o mínimo sentido no sublime
de um lugar em que desejos indecifráveis
caminham além do tempo e da razão
percorrendo o vago mundo inteiro
sem nunca saber onde parar
pois não pertence a lugar algum
a não ser a alguém inerente
ao que se faz sentir.


Alfredo Baleeiro
05 de maio de 2013